Meu pai cresceu em uma época em que o sistema proibia os surdos de sinalizarem livremente na escola. Os professores acreditavam que todo deficiente auditivo precisava ser forçado a aprender a falar oralmente — o antigo e ineficaz "oralismo". O resultado? Ele saiu da educação básica conseguindo apenas somar e subtrair, pois jamais obteve uma explicação compreensível em Libras sobre álgebra ou equações. Ele não aprendeu não por falta de neurônios, mas porque o ensino fechou os olhos para uma realidade visual.
Quando ouço colegas soltarem pérolas como "exatas não entra na cabeça de qualquer um" ou "alunos têm bloqueio genético com matemática", eu lembro da indignação silenciada do meu pai. Esse mesmo bloqueio cruel persegue milhares de estudantes perfeitamente capazes — sejam eles surdos ou ouvintes com ansiedade em exatas que simplesmente necessitam que a matéria ganhe respiro visual ao invés de longas repetições textuais de cálculos sem lógica explicada.
Os anos de silêncio: oralismo e exclusão (1880–1960)
Em 1880, o Congresso de Milão decidiu que a educação de surdos deveria ser exclusivamente oral. Línguas de sinais foram proibidas em escolas de vários países, incluindo o Brasil. O INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), no Rio de Janeiro — a principal referência em educação de surdos do país —, passou a adotar o método oral. Exatas? Nem se falava. O foco era fazer o surdo "falar" e "ler lábios".
Gerações inteiras de surdos brasileiros foram alfabetizadas (quando eram) sem nunca terem contato com conteúdo de ciências exatas em sua própria língua.
A retomada da Libras (1960–2002)
A partir dos anos 60, movimentos mundiais começaram a questionar o oralismo. No Brasil, comunidades surdas se organizaram, associações foram fundadas, e pesquisadores como Lucinda Ferreira Brito começaram a documentar a Libras como uma língua legítima e completa.
O marco legal veio em 2002, com a Lei 10.436, que reconheceu a Libras como língua oficial da comunidade surda brasileira. E em 2005, o Decreto 5.626 regulamentou a lei, obrigando instituições de ensino a garantir acessibilidade em Libras.
Mas entre a lei e a realidade tem um abismo. A maioria das escolas e universidades cumpria a lei "no papel": colocava um intérprete em sala e achava que o problema estava resolvido. Em exatas, onde o vocabulário técnico é altamente especializado, esse intérprete muitas vezes não tinha formação pra traduzir o conteúdo adequadamente.
A era digital: novas possibilidades (2010–hoje)
Com a popularização do YouTube e das redes sociais, professores surdos começaram a produzir conteúdo por conta própria. Canais como o do professor Rimar Segala e iniciativas como o Glossário de Libras da UFSC abriram caminho. Mas em exatas, o cenário continuava árido.
Quando comecei a dar aula de matemática e física pra turmas com alunos surdos, por volta de 2018, eu procurava material em Libras e quase não encontrava nada. As poucas iniciativas eram desconexas — um vídeo aqui, um glossário incompleto ali. Não existia uma trilha estruturada de estudo.
Foi por isso que fundei o Exatas Libras. Não como um projeto grandioso — comecei gravando aulas no meu quarto com uma câmera emprestada. Os primeiros alunos eram filhos de amigos dos meus pais. Depois veio o boca a boca na comunidade surda, e a coisa cresceu.
O que a gente conquistou (e o que falta)
Hoje, temos mais de 520 alunos, um glossário com 400+ sinais técnicos e 180 horas de conteúdo sinalizado. Nossos alunos estão passando em vestibulares, conquistando estágios, formando em engenharia. Isso era impensável pro surdo brasileiro 20 anos atrás.
Mas a gente ainda tá muito longe do ideal. Menos de 3% do material de exatas disponível no Brasil tem acessibilidade em Libras. A maioria dos professores de exatas nunca aprendeu nem o básico de Libras. E muitas escolas ainda tratam o intérprete como "a solução completa" pra inclusão.
Conhecer essa história não é saudosismo — é munição para a revolução na sala de aula. É reconhecer que o cenário evoluiu, mas a imersão visual nas exatas ainda tem muito pano pra manga. E cada aluno surdo ou ouvinte destravado pelo nosso método constrói, retroativamente, a prova irrefutável de ensino inclusivo que familiares como meu pai mereciam ter vivenciado.
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