Todo ano, entre junho e julho, começa a corrida: candidatos surdos tentando entender o que mudou na acessibilidade do ENEM, quais direitos têm, como solicitar a videoprova em Libras e quais documentos precisa enviar. E todo ano, a informação é espalhada, contraditória e cheia de burocracia.

Eu acompanho isso de perto desde 2020. Converso com candidatos, acompanho editais, falo com gente do INEP quando consigo. Neste artigo, junto tudo o que a gente sabe sobre o ENEM 2026 — confirmado e esperado — pra você não perder prazo nem deixar de exercer seus direitos.

O que já está confirmado para 2026

  • Videoprova em Libras — disponível para todas as questões objetivas, com tradução feita por intérpretes certificados pelo MEC.
  • Tempo adicional — candidatos surdos ou com deficiência auditiva têm direito a 60 minutos extras por dia de prova.
  • Sala separada — com recursos de acessibilidade, incluindo intérprete presencial para instruções gerais.
  • Redação com correção adaptada — a banca avalia o texto considerando que o candidato é usuário de L2 (português como segunda língua).

O que ainda precisa melhorar (e a gente cobra todos os anos)

Não vou fingir que tá tudo perfeito, porque não tá. Olha o que ainda é problemático:

  • Qualidade da tradução — já vi videoprovas em que o intérprete claramente não dominava o conteúdo técnico. Em exatas, isso é fatal.
  • Sinais técnicos padronizados — o INEP não segue um glossário unificado, então o mesmo conceito pode ser sinalizado de formas diferentes em anos diferentes.
  • Disponibilidade antecipada — candidatos surdos não têm acesso à videoprova pra treinar antes. Seria essencial ter simulados oficiais em Libras.
  • Falta de professores surdos na comissão — quem decide os critérios de acessibilidade deveria incluir pessoas surdas. Parece óbvio, mas ainda não é a regra.

Como se preparar para o ENEM em Libras

Passo 1: Inscrição correta

Na hora da inscrição, marque que você é pessoa com deficiência auditiva ou surda e solicite a videoprova em Libras. Tenha os documentos — laudo médico ou audiometria — prontos, porque o INEP pode solicitar comprovação. Não deixe pra última hora.

Passo 2: Estude com material em Libras

Parece óbvio, mas muita gente ainda tenta estudar só com material escrito em português e depois se frustra na prova. Use vídeos em Libras, glossários técnicos e simulados bilíngues. Se você for estudar com a gente, todo nosso material é pensado exatamente pra isso.

Passo 3: Treine com tempo cronometrado

Mesmo com os 60 minutos extras, o ENEM é uma prova de resistência. Você precisa treinar velocidade de leitura, interpretação e resolução. Faça provas anteriores com cronômetro — isso faz uma diferença brutal no dia.

Passo 4: Domine a redação em L2

A redação do ENEM é o ponto que mais preocupa candidatos surdos, e com razão. A boa notícia é que a banca deve considerar que o português é sua segunda língua. Mas isso não significa que vale tudo — estrutura, coesão e argumentação ainda contam. Pratique escrever textos argumentativos com frequência e peça feedback de alguém que entenda a correção do ENEM.

Seus direitos existem. Use-os.

Muita gente não sabe, mas se a acessibilidade prometida não for entregue no dia da prova — por exemplo, se a videoprova travar ou se não tiver intérprete na sala — você pode registrar ocorrência e solicitar reaplicação. Não aceite fazer a prova em condições inadequadas calado. Seus direitos existem e são lei.


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